domingo, 28 de agosto de 2011

MAIS CULTURA RS - Pronunciamento Secretário de Cultura


Pronunciamento do Secretário de Estado da Cultura,Luiz Antonio de Assis Brasil, em saudação a Ministra de Estado da Cultura, Ana de Hollanda 

22 de agosto de 2011 

Palácio Piratini

Prezada ministra.
Se pensarmos exclusivamente em termos de história oficial e escrita, o Rio Grande do Sul foi um dos últimos territórios do mundo a ser objeto de povoamento europeu. Antes, aqui havia a planície e as montanhas batidas pelo vento minuano e que fustigava uma esparsa população indígena, posteriormente dizimada pela cobiça predatória do colonizador. Quando aqui chegou o primeiro português, o mosteiro da Graça, na Bahia, já era velho de dois séculos. Isso advém, em parte, da circunstância de nossa posição na cartografia das Américas, neste paralelo tão ao Sul, tão ao sabor das ambições cambiantes dos dois reinos colossais que governavam o mundo.
Nossa errante Geografia, entretanto, é inspirada por uma História vigorosa, em que se destacam a Guerra dos Farrapos, essa tragédia fundadora que nos fez independentes do Império por uma década, e todos os conflitos externos do País. Todos esses embates, todos, foram travados no chão rio-grandense, e basta lembrar, aqui, a Guerra Cisplatina, a Guerra contra Rosas e a Guerra da Tríplice Aliança. Conflitos outros – e não nos envaidecemos de todo com disso – tais como a Revolução de 1893, de 1923 e a de 30, que aqui teve início, marcam profundamente nosso passado.
Acrescendo-se a isso a Campanha da Legalidade, de 1961, construímos um estado que viveu tensões que não se confundem com nenhuma experiência política e bélica das restantes unidades da Federação. Esses episódios teriam deixado marcas insuperáveis e ásperos rancores; por sorte, somos múltiplos, fenômeno que nos vitaliza e fortalece, tal como acontece nos seres biológicos.
De fato, como lugar de convergência de nacionalidades, as quais aqui se mesclaram com os contingentes platinos, e ainda com as etnias negra e indígena, formamos um Estado multiétnico, com amplos espaços de hibridismos linguísticos e culturais. Isso explica a variedade de rostos, de crenças e modos de encarar a vida. O Rio Grande vai muito além da indigente caricatura que nos reduz a um tipo, canibalizado por alguma parte da inteligência brasileira, a começar pelo romance “O Gaúcho”, de José de Alencar.
Acusam-nos, às vezes, de atrevidos e pouco modestos, mas isso não deve ser levado muito a sério. Somos, na verdade, cavalheiros, algo tímidos até. O maior símbolo de nosso caráter é Erico Verissimo, homem brando, de fala suave, mas visceralmente firme em suas convicções, e que foi capaz de recusar uma honraria da Ditadura Militar. Além disso, somos um povo que ama o recolhimento do outono e a intimidade do inverno, e isso deve significar algo.
Nossa maior beleza é nossa diversidade. Se temos algo que une, a nós, deste Sul extremo, é a certeza de partilharmos uma ética coletiva que respeita a honradez e abomina as formas torpes de convivência política; mais do que o pertencimento a um espaço comum, somos gaúchos porque possuímos a mesma alma compartilhada, decorrente da variedade de nossos homens e mulheres.
É gaúcho o pescador do Litoral, com os olhos perdidos na imensidão do Oceano; é gaúcha a mulher da Serra, com o cesto às costas na época da vindima; é gaúcha a mulher do pampa, que acorda quando a noite ainda tem estrelas e vai em direção à ordenha pisando a geada; é gaúcho o operário da cidade, que conhece o pampa apenas por fotografia e telenovela; é gaúcha a mulher do Planalto, curtida pelo frio e que assiste àqueles longos poentes. São gaúchos, enfim, os quilombolas, os índios caingangues, os carnavalescos, as irmãs carmelitas, os sem-terra, as aviadoras, os empresários do aço e as proprietárias das galerias de arte. Nossos sotaques são variados. Apurada nossa percepção auditiva, podemos discernir quem é de Santa Maria, de Pelotas, de São Borja ou de Gramado.
Tudo o que foi dito acima pode sugerir o prestígio da imobilidade, ou pior, à ideia de que incidimos na falácia de dizer que no passado era melhor. O Rio Grande do Sul é do Brasil e do mundo, um mote que foi aceito pela população rio-grandense nas últimas eleições como o resumo de um pensamento que projeta nosso Estado num futuro que precisa recuperar o tempo perdido.
Todos nós temos orgulho de nossa regionalidade, sim, mas temos igual orgulho de pertencer à nacionalidade brasileira e de participar do concerto internacional, como habitantes deste mundo tão imenso quanto nosso sonho. E isso em todas as áreas: no progresso tecnológico, na diversidade industrial e agrícola, na proteção do ambiente, nas operações econômicas, no desenvolvimento social, na saúde, na segurança dos cidadãos, no respeito às minorias.
Cara Ministra: este instante tem um valor excepcional, talvez ainda maior do que Vossa Excelência possa imaginar. Ele é o símbolo do reatamento de ações com o Ministério da Cultura, o que rompe um injustificável isolamento – isolamento de anos – que em nada nos ajudava e só nos constrangia.
Não se trata, este momento, de um simples anúncio de destinação de recursos para ações conjuntas com a Secretaria de Estado da Cultura, visando à implantação do Programa Mais Cultura RS. É isso, mas não só; significa nossa consonância com o Plano Nacional da Cultura, através da competente contrapartida do Estado, a qual, embora expressiva, não é apenas financeira. Temos muito a receber, mas também muito a dar, em criatividade, força de trabalho e originalidade construtiva: isso se consubstancia em nossas mulheres e homens de ciência, no nosso pensamento filosófico, humanístico, antropológico e histórico.
Nossa produção de bens simbólicos é extraordinária, como Vossa Excelência bem sabe. Se nossa juventude não propiciou o surgimento de uma opulenta cultura anônima, como, por exemplo, a que tem o Nordeste, alguns fenômenos especialíssimos nos distinguem, como a publicação do segundo romance brasileiro, em 1847, o qual deu origem a uma literatura que chega a nossos dias como uma das mais consistentes do País, no dizer da crítica nacional. Mas não apenas a literatura: o Rio Grande pratica com igual empenho a música, tanto a pop como a erudita – a não esquecer nossa Orquestra Sinfônica, ora completando 60 anos; pratica as artes plásticas, a dança, o cinema, o teatro como ação e como estabelecimento – a invocar aqui o Teatro Sete de Abril, de Pelotas, e o São Pedro, do outro lado da Praça, ambos da primeira metade do século 19. Fatos culturais de caráter internacional sucedem-se, como a Bienal do Mercosul, a Jornada Literária de Passo Fundo, a Feira do Livro, entre outros tantos. O rol seria longo e importuno. E porque devo concluir, concluo.
O sentimento, neste dia e nesta hora, neste palácio, é de intensa alegria por estar Vossa Excelência entre nós. Queremos que tenha uma feliz estada em nosso solo, em contato com este povo múltiplo e que sabe realizar o equilíbrio entre o que importa a si próprio e aquilo que importa ao Brasil.
Prezada ministra Ana de Holanda: que este encontro seja a abertura de um caminho de perene e frutífera colaboração. Tudo nos une, nada nos separa. O Ministério da Cultura pode contar conosco. O Ministério terá como interlocutor um povo altivo e consciente, mas que sabe transigir e praticar a solidariedade operativa, que produzirá frutos visíveis, e desde logo porque, tal como o governo do estado e a presidência deste País, temos pressa, muita pressa – mas, também, muita paciência.
Obrigado.

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